Breve história da espiritualidade russa


ASSOCIAÇÃO A VERDADEIRA VIDA EM DEUS - BRASIL



Comunicado: 06/2017

Data: 24 de agosto de 2017



Meus irmãos e irmãs da AVVD,



Rússia, espirituralidade ortodoxa.


Breve história da espiritualidade russa

Palestra ecumênica sobre a Rússia no centenário de Fátima
O chamado profético para a Igreja Ortodoxa Russa em nosso tempo

pe Enrique Bikkesbakker

Padre Enrique Bikkesbakker 1Presbítero ortodoxo, pertence à Paróquia San Martín de Tours desde 1978, em Buenos Aires, Argentina.

Buenos Aires, Argentina, 23 e 30 de jun 20172Em duas igrejas de Buenos Aires: a primeira, do padre Matias Morea, Pároco de N. Sra do Perpétuo Socorro e a segunda, do padre Daniel Aguilera, católico romano, Pároco da Igreja do Menino Jesus de Belém, que participou do IX Retiro Latino-americano A Verdadeira Vida Em Deus, em Aparecida, SP, em novembro de 2016.


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Falar da história da espiritualidade russa numa reunião é impossível: há muito que dizer. Mas vou fazer um breve resumo porque uma coisa é falar da história, outra coisa é falar da espiritualidade.

O Senhor disse a Vassula:

Eu Me proponho mostrar Meu esplendor e Minha Glória a cada nação que vive debaixo destes céus através de tua irmã Rússia. Eu a revestirei de Minha Beleza e Minha Integridade e a apresentarei com orgulho diante de teus irmãos a fim de que possam ver por ela e nela Minha Beleza e Minha Integridade. (24.12.1989)

{Lembrem-se disto: Minha beleza e Minha integridade.}3Os trechos entre chaves são comentários do palestrante não incluídos no texto escrito de sua palestra original, transcritos e traduzidos do áudio da palestra. (N. da T.)

Para compreender melhor estas palavras do Senhor, é necessário imergirmos brevemente na história da espiritualidade da Igreja russa.

Santo André

Segundo narra a Tradição, o Apóstolo André foi o encarregado de levar a luz da Revelação cristã à Europa Oriental. Depois de proclamar o Evangelho no litoral da Grécia, às margens do Mar Negro, subiu o rio Dnieper até umas formosas colinas em Kiev onde ergueu uma cruz e disse:

“Neste lugar resplandecerá a Bênção divina. Serão erguidas igrejas a Cristo e a luz verdadeira se propagará daqui a todos os países.”

{Notaram a semelhança entre o que Jesus disse a Vassula e o que estamos dizendo aqui? Estamos falando do apóstolo André, que é padroeiro da Grécia, da Rússia, da Irlanda. Três apostolados.}

Dali o Apóstolo seguiu seu caminho chegando perto do Mar Báltico, batizando numerosos adeptos em diferentes centros e povoados.

Como reconhecimento da presença evangelizadora de Santo André, o Patriarca Partênio, de Constantinopla, no século XVII, doou a Moscou a mão até o cotovelo do Apóstolo, relíquia que permaneceu guardada na Catedral da Dormição da Virgem até a Revolução Bolchevique.

Oitocentos anos depois da semeadura apostólica de Santo André, o Patriarca de Constantinopla, Fócio, envia à Bulgária (em 862) dois irmãos gregos de Tessalônica: Cirilo (826-69) e Metódio (815-85) com a missão de evangelizar o povo búlgaro. O povo búlgaro é limítrofe com o povo russo. A obra foi muito frutífera e foi coroada com o batismo do Príncipe Bóris e de seu povo.

São Cirilo e São Metódio

Como preparação para a tarefa missionária, São Cirilo e São Metódio – mais especificamente São Cirilo – substituiu o antigo alfabeto eslavo que se falava na região por um novo, muito mais simples e admiravelmente adaptado aos sons eslavos, tendo por base as letras gregas. Isto permitiu realizar o enorme trabalho de traduzir a Bíblia a esse idioma, tarefa imprescindível para a posterior confecção dos livros litúrgicos.

{O fato fundamental é que não se tratou de se impor um idioma, mas de se pôr serviçalmente sob um povo e de transmitir através do próprio idioma do povo – é o que se chama de não colonização, mas de cristianização de um povo. Cristo se pôs debaixo de nosso domínio, não acima. Se fez judeu, Se criou com o povo de Nazaré, respeitou as leis... – isto é todo um processo de kenosis4Doutrina do Esvaziamento de Jesus Cristo. Cristo, sendo Deus, ao vir ao mundo Se esvaziou de Seus atributos divinos - transcendência, onisciência, onipotência, onipresença, Sua total Glória e esplendor - para se tornar igual aos Homens, exceto no pecado. (N. da T. Fonte: Wikipédia, em 24.08.2017) – e se pôs a serviço do povo para a evangelização. Este é um trabalho maravilhoso que nos ensinam todos os homens santos – mas não foram santos por isso.}

No final do mesmo século, o rei Simeão, o Grande, século IX (893-927), converte a Bulgária em uma potência europeia e herdeira da cultura civil e espiritual de Bizâncio. Então, reproduzem-se em grande escala a Santa Escritura e os livros litúrgicos traduzidos para o eslavo por Cirilo e Metódio – e isso será decisivo para a cristianização da Rússia.

O exército do Príncipe Sviatoslav, príncipe de Kiev, em 967 conquista toda a parte oriental da Bulgária, mas respeita as igrejas e o clero. A ocupação russa enriquece as relações culturais e comerciais entre os dois países e permite o intercâmbio religioso, favorecido pelas traduções de São Cirilo e São Metódio à sua própria língua.

A mãe do Príncipe Sviatoslav, Olga, {e agora chamo a atenção para o seguinte: sempre por trás de qualquer trabalho evangélico, de qualquer trabalho espiritual, há uma mulher, sempre; está na Bíblia, nós é que não vemos, mas sempre, absolutamente sempre} e aqui está Santa Olga de Kiev que já havia abraçado o cristianismo alguns anos antes desta conquista. Foi a primeira princesa russa que abraçou o cristianismo. No entanto, seu filho, o Príncipe Sviatoslav, que foi quem conquistou a Bulgária, jamais aceitou se converter ao cristianismo, mas seu neto Vladimir foi educado por ela cristãmente desde pequeno.

Vladimir seguiu o pai na vida pagã e guerreira nos primeiros anos de seu principado, mas depois, através dos anos, e pela perseverante influência de sua avó, Santa Olga, lentamente foi despertando nele um chamado à sua conversão pessoal e à de seu povo.

Santa Olga

Apesar de ter sido iniciado por Santa Olga no cristianismo bizantino, a Tradição nos conta que Vladimir quis assegurar-se da escolha, para ele e para seu povo, enviando uma delegação de observadores para que estudassem as práticas islâmicas entre os árabes, as do judaísmo que professavam os cazares – cujo reino estava situado na região baixa do Volga – e as da Igreja latina que atuava no Ocidente (até esse momento não havia divisão, havia uma só Igreja cristã). Nenhuma dessas religiões produziu nos enviados uma impressão tão favorável como o esplendor da liturgia bizantina quando visitaram a catedral de Santa Sofia em Constantinopla. O narrador da crônica russa relata:

“Não sabíamos se estávamos no Céu ou sobre a Terra, já que na Terra não se encontra semelhante beleza.”

{Na Terra não se encontra semelhante beleza.}

“Assim, portanto, não sabemos o que devemos dizer, mas sabemos, sim, de uma coisa: é que Deus mora ali com os homens...”

Estas palavras ultrapassam infinitamente a impressão estética da liturgia que presenciaram. É a beleza da presença de Deus diante dos homens o que arrebata as almas e as transporta, {não a beleza de uma boa liturgia, de algo bem decorado.}

Lembram-se das palavras do Senhor a Vassula? (... Eu a revestirei da Minha Beleza e Minha Integridade...)

A beleza manifesta o divino. E quem é que manifesta esta beleza? O Espírito Santo. Por isso, São Cirilo de Alexandria, Patriarca, Padre da Igreja do século quarto, precisa que o próprio do Espírito é ser o Espírito de beleza.

Passando por alto o acontecimento histórico que também contribuiu para a conversão da Rússia, nos deparamos com o Príncipe Vladimir que se batiza junto com seu povo na primavera de 988 – por isso 1988 foi o milenário da Igreja Russa – consagrando-se a organizar um Estado verdadeiramente cristão.

Os contemporâneos de Vladimir afirmam unanimemente que seu caráter e sua maneira de viver sofreram uma transformação radical em todos os níveis: consulta os bispos acerca dos assuntos do Estado, reorganiza a Justiça, elimina a pena de morte. {Foi apresentar-se ao Patriarca de Constantinopla para dizer-lhe que um povo cristão com um Patriarcado Bizantino – que foi o patriarcado mais importante do Oriente – não poderia conviver com a pena de morte, mas deveria extingui-la. Notam como houve a conversão?}

A conversão a uma vida verdadeiramente cristã se estende a várias gerações começando por seus filhos – São Bóris e São Gleb – ambos mártires, assassinados pelo terceiro filho de Vladimir, Sviatopolk, porque, apesar de ambos terem um exército superior ao de seu irmão, se negaram a lutar contra ele pela sucessão do trono do principado de Kiev. As últimas palavras de São Bóris antes de seu assassinato foram:

“Senhor, Tu sofreste por nossos pecados; torna-me digno de sofrer por Ti. Não morro nas mãos de meus inimigos, mas nas de meu irmão. Não lhe atribuas este assassinato como um pecado.”

Já vamos vendo, através de seus fundadores, como o povo russo vai adquirindo o sentido evangélico do sofrimento, que difere completamente do que se lhe dá habitualmente.

A partir do século X, se constroem templos majestosos, e a partir do século XI começam na Rus’5N. da T.: Rus' de Kiev ou Rússia Kievana foi uma federação frouxa de tribos eslavas do Leste Europeu dos séculos IX ao XIII, sob o reino da dinastia de Rurik. Os povos modernos da Bielorrússia, Ucrânia e Rússia reivindicam a Rus’ de Kiev como seu ancestral cultural. [Fonte: Wikipédia, em 04/08/2017. Vide: https://pt.wikipedia.org/wiki/Principado_de_Kiev] – como então se chamava a Rússia – a se desenvolverem os mosteiros. No ano 1051, um monge do Monte Atos, chamado Antônio, leva à Rus’ a tradição da comunidade monástica do Monte Atos fundando o famoso Mosteiro das Covas de Kiev, que se converteu no centro da vida cristã da Antiga Rússia.

Santo Antônio foi sucedido por São Teodósio (1074), que aprofundou nesta semeadura um espírito profundamente cristão que se estende à vida pessoal e social do povo russo. Todos os aspectos de seu testemunho e a popularidade que desfrutou atestam a forte influência do cristianismo sobre o povo.

O papel dos mosteiros em Rus’ era enorme. Eram grandes centros de instrução e de trabalho social. Foram escritos manuscritos que conservaram até nossos dias relatos de todos os acontecimentos notáveis da história do povo russo, {não só religiosos (prefiro dizer, espirituais)}.

Nos mosteiros floresciam a pintura de ícones e a arte da escrita de livros; realizavam-se traduções ao idioma russo de obras teológicas, históricas e literárias. A ampla atividade benéfica dos conventos contribuía para a impregnação da vida cristã em todas as manifestações culturais e sociais.

Rus’, durante o período de Kiev (980-1240) alcançou um alto nível de civilização. Sua capital foi a segunda cidade da Europa, depois de Constantinopla. As catedrais de Santa Sofia, erigidas em Kiev e em Novgorod, eram os edifícios mais belos fora de Bizâncio.

Este é o período da fundação e é muito importante discernir as colunas sobre as quais se vai construindo a Igreja da Rússia:

Catedral de Santa Sofia, Kiev

1. O que definiu a escolha da Igreja Bizantina foi a liturgia. E o amor da Igreja russa pela liturgia permaneceria até hoje. Além disso, o rito permaneceria inalterado durante séculos.


2. O Estado e a Igreja estão unidos pelo Evangelho. O Mosteiro é o lugar onde se desenvolvem todas as atividades do povo: espirituais, culturais e sociais. O cristianismo se integra em todas as atividades do povo e seus governantes. E aqui nos deparamos com a segunda palavra que ouvimos do Senhor a Vassula: Integridade. Não nos encontramos com uma religião dos domingos e dias santos, mas com uma maneira cotidiana de viver.

{O cristianismo não é apenas uma religião, mas uma maneira de viver. Assim foi instituído pelo Senhor.}

Em 1237, com a invasão dos mongóis, Kiev foi saqueada e destruída junto com todos os principados russos, com exceção de Novgorod. Devido à destruição de Kiev, o centro vital da Rússia mudou-se para Novgorod, a Grande, principal centro cultural depois de Kiev.

Jesus diz a Vassula (esclarecendo-se que o texto não se refere a este evento especificamente):

Esta nação que uma vez Me honrou e louvou abertamente, radiante como uma safira, uma Cidadela de delícias, foi reduzida a um árido país de seca pelos pecados e crimes do mundo. (03.09.1991)

A invasão dos mongóis causou à Rússia sua destruição econômica. No entanto, a Igreja pôde sobreviver graças à tolerância dos invasores, que respeitaram a espiritualidade do povo, chegando ao ponto de não cobrar impostos aos bispos e suas igrejas. Sustentada pela mão da Igreja, a Rússia manteve-se unida e manteve viva a sua fé durante os dois séculos e meio de ocupação.

No início do século XIV, se somam a Novgorod dois centros políticos crescentes: Rostov, a Grande, e um pequeno principado, Moscou, cuja importância foi crescendo ano a ano graças à capacidade de seus príncipes, que eram a favor de uma unidade autocrática da Rússia (até então eram diversos principados).

{A Rússia era uma quantidade enorme de principados. Cada príncipe tinha sua independência, então era muito facilmente atacada e conquistada. O exército tártaro era absolutamente imparável porque os tártaros tinham dois cavalos e eram capazes de dormir e de comer cavalgando. Suas tropas chegavam muito antes do esperado.}

A Igreja, juntamente com os seus monges, continuou a desempenhar um papel importante no renascimento de uma Rússia unida.

{Porque a Igreja e os monges são uma coisa só, no povo russo, com os monastérios. Assim também digamos que no século IV havia dois cristianismos – é quando terminam os três primeiros séculos de perseguição cristã que teve 7 milhões e setecentos mil mártires. Mas no momento em que Constantino – não sei se era cristão, mas – instituiu a religião cristã como a religião do Estado, ocorrem duas coisas [muito bem dito por São Gregório de Nissa]: “Não sei se vai realizar mais a cristianização dos pagãos ou a paganização dos cristãos." E se produzem dois cristianismos: o cristianismo oficial, ligado de alguma forma ao poder, e o monacato, que é um cristianismo absoluto. Por isso, vão ao deserto. Vão para longe da civilização. Mas o deserto está habitado por outros seres que são os seres diabólicos. Santo Antão, que é o Pai do monasticismo de todo o mundo, vai para o deserto para combater o Maligno.

Então ali se produzem dois cristianismos. Creio pessoalmente que aí começa a decadência do cristianismo, nesse momento. Porque começa a se orientar pelos valores do Estado. Há um exemplo, no primeiro Concílio Ecumênico, em 318, até este momento em todos os concílios realizados havia unanimidade porque a unanimidade indicava que o Espírito Santo estava presente nas decisões. Se chegava a uma conclusão e havia uma unanimidade. Neste Concílio, entre 317 bispos um não estava de acordo. Então o que acontece? Constantino percebe isso, que chegaram a uma unanimidade. Mas aí entra a política no cristianismo. Esta é uma opinião pessoal que eu tenho, mas o acontecimento que estou contando é verdade. Não que eu pense que se tenha que sair do mundo, mas é necessário que um pequeno resto [dos cristãos] cumpra o Evangelho absolutamente, para que o Senhor perdoe a todos nós. De toda forma, no mundo talvez se possa fazer um certo monasticismo citadino, não é necessário se fazer um monasticismo estrito porque o monasticismo russo não era assim.

São Sérgio, de Moscou

No princípio, no monasticismo até São Sérgio de Moscou, uma pessoa poderia fazer uma pequenina casa bem feita, com um altarzinho e ali ficava. Depois vinha outro ao lado e assim por diante. Não havia um edifício comum. Cada um tinha sua casinha e se reuniam, mas cada um vivia em sua casa e se juntavam para rezar. Era um pouco a maneira como se vivia no tempo de Jesus. Foi como instituiu Jesus, não havia um edifício chamado igreja. Ecclesia quer dizer ‘convocatória’, não é um edifício. Construir minha igreja é construir minha convocatória ao povo. E assim começou até São Sergio, e nasceram os mosteiros. Só se rezava em comum, nada mais.}

Santo Aleixo

Os notáveis santos russos eram líderes espirituais e colaboradores dos príncipes moscovitas. Santo Aleixo, Bispo de Moscou (1354-1378), educou o príncipe Dimítri Donskóy (Demétrio de Moscou). Ele ajudou o príncipe moscovita a acabar com a agitação feudal e a construir lentamente a unidade do Estado russo. {Dimítri tornou-se um santo, São Demétrio, muito estimado pelo povo russo.}

É no momento em que as forças da nação começam a se concentrar em torno de Moscou que surge o grande santo da Rússia, São Sérgio de Radonej.

São Sérgio nasce em 1313, filho de camponeses ricos de Rostov. Nunca foi muito capaz nem afeiçoado aos estudos; tinha dificuldade em aprender a ler e escrever até que recebeu a bênção de um monge que lhe disse: "a partir de hoje, você vai ser excelente nos estudos e, pela graça divina, poderá entender as Escrituras". Mas ele nunca se destacou nos estudos, apesar da bênção.

{Isto nos indica que o conhecimento de Deus não é o mesmo que o conhecimento do mundo, que o conhecimento intelectual.}

Quando seus pais, já de idade, entraram para um mosteiro para terminar seus dias lá, São Sérgio partiu, junto com seu irmão Estêvão, para uma floresta virgem {na Rússia, o lugar de isolamento não são desertos de areia, mas bosques} e lá construíram uma cabana junto a uma fonte e uma pequena capela dedicada à Santíssima Trindade. Eles viviam em isolamento total.

Seu irmão o deixou, depois de um tempo, à procura de uma vida menos exigente e Sergio ficou sozinho, continuando sua vida de recluso, na companhia de animais da floresta, entre eles um urso com quem compartilhava sua escassa comida.

Aos poucos, suas virtudes foram sendo conhecidas e alguns homens vieram para aprender com ele a dura experiência monástica. {Estamos falando de 25 graus abaixo de zero no inverno, e que Deus proverá, de acordo com a Sua palavra do Evangelho: Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será acrescentado (Mt 6,33) – naquela época não se aceitava esmola.} No entanto, não levavam uma vida comunitária, já que cada um, em sua cabana, organizava seu tempo e administrava seus bens como entendia, consultando Sérgio como um pai espiritual.

Alguns anos mais tarde, contra a sua vontade, foi nomeado abade e diz a seus irmãos:

"Orem por mim, meus irmãos, porque eu não tenho mansidão nem sabedoria, mas recebi do Rei do Céu um talento, e devo prestar contas."

{Este é um ato preciso de humildade: ocupar exatamente o seu lugar.}

A partir da convivência com outros irmãos, se começam a conhecer seus primeiros milagres: doações milagrosas de alimentos que permitem o cumprimento evangélico de não se preocupar com nada; o surgimento de uma vertente de água abundante que até hoje abastece o mosteiro; a cura de um possesso e até mesmo o despertar de uma criança morta.

Junto com as graças recebidas sobrevém uma provação a São Sérgio e aos monges. O Patriarca Filoteu, de Constantinopla, lhe enviou uma carta ordenando-lhe estabelecer a vida comunitária no mosteiro, eliminar as posses pessoais, organizar a economia e distribuir os trabalhos domésticos. Construir uma padaria, um refeitório, um depósito de alimentos; impedir que se comprassem ou vendessem bens no próprio nome, mas que se considerasse tudo como um bem comum.

São Sérgio aceitou [tudo isso] por obediência ao Patriarca e a seu próprio bispo, a quem recorreu para confirmar a ordem.

Apesar desta dificuldade inicial, surgiram outros mosteiros, dirigidos por discípulos de Sérgio: o do Salvador, em Moscou (que seria, mais tarde, decorado pelos afrescos de Andrei Rublev); o da Natividade da Virgem, também perto de Moscou, chamado Simonov; o da Virgem da Montanha, etc.

São Sérgio apoiou fortemente a política de unificação dos principados de Moscou, o que permitiu enfrentar o jugo mongol.

O grande príncipe Dimítri chegou à Abadia da Trindade para lhe pedir aconselhamento e orações porque estava se preparando para a grande batalha contra o exército tártaro, pronto para atacar Moscou. O santo lhe disse:

"Seu dever exige que defenda seu povo. Esteja preparado para oferecer a sua alma e derramar o seu sangue. Mas, primeiro, apresente-se a Khan como se fosse seu vassalo e tente detê-lo por sua submissão. A Escritura nos ensina que, se nossos inimigos reivindicam nossa glória ou desejam nosso ouro e nossa prata, podemos dar-lhes. Ofereçamos nossa vida e nosso sangue apenas pelo nome de Cristo. Ouça, Príncipe: dê-lhes sua glória e suas riquezas, e Deus não permitirá sua derrota; Ele irá elevá-lo ao ver sua humildade e humilhará o indomável orgulho deles."

Mas o príncipe respondeu que as tentativas de evitar a batalha haviam sido esgotadas. Então Sérgio lhe disse: "Vá, então; Deus lhe ajudará. Que Sua graça esteja com vocês".

O Príncipe Dimítri vence pela primeira vez o até então invencível e devastador exército mongol, e este é o começo, não sem grandes dificuldades, da libertação da ocupação mongol.

Trinta anos depois da morte de São Sérgio, seu corpo incorrupto foi depositado na igreja. Todos os grandes movimentos espirituais da Rússia estão ligados a ele, de uma forma ou de outra, porque ele une harmoniosamente as duas tendências do monasticismo autêntico: a vida do eremita e a vida cenobítica (comunitária), mantendo a primazia do misticismo contemplativo unido à importância do trabalho e da atividade caritativa.

No total, desde o século ХIV até meados do século ХV foram fundados na Rus’ cento e oitenta novos claustros monásticos.

Livrando-se dos invasores, o Estado Russo ia acumulando poder, e a Igreja acompanhava esse crescimento.

Em 1448, pouco antes da queda do Império Bizantino, a Igreja Russa tornou-se independente do Patriarcado de Constantinopla, do qual dependia até esse momento. O metropolita Jonas, nomeado pelo Concílio dos Bispos russos em 1448, recebeu o título de Metropolita de Moscou e Toda a Rus’.

Em 1589 o Metropolita de Moscou, Job, tornou-se o primeiro Patriarca Russo, a quem os patriarcados orientais outorgaram o quinto lugar de honra.

O início do século ХVIII foi marcado por reformas radicais de Pedro I, cuja intenção era europeizar a Rússia, inclusive a Igreja.

Depois da morte do Patriarca Adrian em 1700, Pedro I suspendeu a eleição do novo patriarca e em 1721 instituiu um colégio regente eclesiástico superior representado pelo Santo Sínodo Regente (escolhido pelo Czar), que permaneceria como um órgão eclesiástico superior durante quase duzentos anos.

Grande admirador do Ocidente, Pedro, o Grande, queria limitar a inserção da Igreja na vida cultural, na assistência social, eliminando muito do que a Igreja e os mosteiros haviam realizado até o momento: a evangelização da vida social e cultural e política do povo. Por isso, tanto Pedro, o Grande, como Catarina I da Rússia, fecharam depois numerosos mosteiros.

O renascimento da vida monástica veio das mãos de Paissy Velitchkovsky (1722-1794) que, vendo-se impossibilitado de fundar um centro espiritual na Rússia, foi para o Monte Atos [Grécia]6N. da T. , onde permaneceu por 17 anos.

Em seguida, retorna à Moldávia (Romênia) estabelecendo-se no grande mosteiro de Niamtsy, concentrando-se, entre outras atividades, na tradução para o eslavo da famosa compilação de textos de autores ascéticos ortodoxos composta por um monge do Monte Atos: São Nicodemos, o Hagiorita, (1749-1809) e o bispo Macário de Corinto (1731-1805).

Esta obra monumental chamada Filocália7Livro clássico da literatura católica ortodoxa – uma coletânea de textos de autores diversos sobre a Oração do Coração, publicada em Veneza, em 1782. (N. da T., fonte: Wikipédia) (amor à beleza espiritual) (Dobrotolubiye, em eslavo) contém os relatos dos Padres do Deserto que cultivavam o hesicasmo (prática ascética que significa: quietude, silêncio, paz interior, sobriedade) e a "oração do coração", difundida entre os monges cristãos orientais, a partir do século IV com os chamados Padres do Deserto.

Os Padres hesicastas desenvolveram uma Tradição terapêutica que tratava das doenças (paixões) da alma e do espírito, indicando o processo de cura. Entre todos os métodos que foram usados pelos primeiros monges, os dois principais foram:

1. total confiança em um superior, o staretz, a quem se abre o coração até o ponto de revelar os pensamentos mais íntimos;


2. a obediência perfeita. O único combate eficaz contra o poder do ego.

O mérito de Paissy não se limitou à publicação de livros, mas, através da experiência espiritual pessoal na vida comum, ele conseguiu inserir o ideal hesicasta que cultivavam os eremitas na vida de uma comunidade monástica. Esta síntese admirável foi possível graças à restauração da antiga tradição da paternidade espiritual (staretz).

Era a figura viva do staretz que harmonizava a práxis monástica exterior, que consistia na disciplina, regra, ofício litúrgico e ascese corporal; e a práxis interior, constituída de combate espiritual, oração do coração e o discernimento dos espíritos. Esta experiência fez dos grandes mosteiros na Moldávia, guiados por Paissy, uma verdadeira escola de staretz [que depois entrou na Rússia].

É o retorno às fontes do monasticismo de São Sérgio, que se acredita quase com certeza que praticava o hesicasmo.

Na Rússia, a Filocália eslava converte-se no veículo de um verdadeiro e próprio renascimento espiritual.

São Serafim de Sarov

No final do século XIX, é publicado um livreto: "Relatos de um peregrino russo", escrito por um autor anônimo que narra de forma autobiográfica a peregrinação física e espiritual de um peregrino anônimo para alcançar o conhecimento da oração interior contínua. Toma o caminho da oração do coração como um método para acostumar o espírito ao recolhimento e fazer com que se acenda no espírito, pelo Espírito Santo, a chama da verdadeira oração e do verdadeiro amor como caminho para Deus.

O século ХIХ deu grandes exemplos de santidade russa: os bispos metropolitas de Moscou Filareto e Inocêncio, São Serafim de Sarov, São Inácio Brianchaninov, São Teófano, o Recluso.

Comunismo

A partir de 1917, irrompe na Rússia o movimento político mais assassino e selvagem de todos os tempos: o comunismo.

Nos primeiros anos do poder bolchevique, o procedimento básico se norteava pelo decreto de Lênin, de 23 de janeiro de 1918, baseado na separação entre Igreja e Estado. Na sequência deste ato legislativo, deu-se uma campanha brutal de confisco de propriedades da Igreja, durante a qual foram presas e assassinadas muitas pessoas, ao mesmo tempo em que o ensino religioso era abolido nas escolas e nas instituições de ensino nacionalizadas, inclusive os seminários.

Nos anos seguintes, foram realizadas inúmeras campanhas contra a Igreja Ortodoxa. Em 1919, foi promulgado o decreto sobre a extinção do culto às relíquias, o que compreendeu a profanação de inúmeras igrejas e corpos de santos {foram queimados}. Em 1922, deu-se a requisição de objetos preciosos da Igreja, o que desencadeou numerosas reações entre os fiéis, mas o governo respondeu com uma dura repressão.

{foram queimados}. Em 1922, deu-se a requisição de objetos preciosos da Igreja, o que desencadeou numerosas reações entre os fiéis, mas o governo respondeu com uma dura repressão.

Não só a Igreja Ortodoxa foi vítima das perseguições, mas também todas as igrejas e comunidades. Todas sofreram uma política de erradicação da vida social e pessoal dos cidadãos soviéticos. Era – como foi escrito em um manifesto de propaganda em 1923- "a luta decisiva contra o papa, chamado de pastor, abade, rabino, patriarca, mulá ou Papa; esta luta deve ser realizada da mesma forma contra Deus, que é chamado de Jeová, Jesus, Buda ou Alá."

Quando Khrushchov assumiu o poder, ele mesmo anunciou ao povo que já haviam matado 20 milhões de cristãos ortodoxos. Se considerarmos que continuou com as perseguições de um modo tão violento quanto seu antecessor, podemos acrescentar outros milhões de mártires cristãos.

O Senhor disse a Vassula:

Como poderei descrever tudo quanto seus filhos sofreram? A que poderei compará-los, filha? Todo o Céu estava de luto pelos seus filhos. Os seus filhos estavam completamente indefesos, mas quem estava, então, a seu lado, para chorá-los? Haveria, entre eles, alguém suficientemente forte para trespassar o Dragão? Não, nem quando sua pele colou em seus ossos. Seus filhos passaram a mendigar Pão; oprimidos pelo inimigo, sucumbiram sob seu fardo. Se, em segredo, tentavam encontrar refúgio em Meus Braços, eram severamente punidos. Não lhes era permitido demonstrar seu zelo por Mim. Os seus perseguidores eram mais rápidos que serpentes e espiavam cada passo que davam; e, se suspeitassem que escondiam sob o colchão o Livro da Vida, Meus filhos eram vexados e perseguidos e, depois, capturados.


Ah! Minha filha! Os Meus Olhos choraram sem cessar ao ver essa nação constrangida ao silêncio pela espada. Sacerdotes e profetas eram feitos prisioneiros e eram forçados a habitar na escuridão. Muitos deles foram massacrados, sem piedade alguma, diante dos Meus Próprios Olhos. (03.09.1991)

{Esse texto é a prova inquestionável da liberdade que Deus dá ao Homem. Deus não pode intervir na obra humana, pela liberdade que Deus lhe deu. Deus correu o risco de dar a liberdade ao Homem. Claro, Deus é onipotente. Mas não vai tirar essa liberdade. O que Ele pode fazer é inspirar alguém pelo Espírito Santo para ganhá-Lo, mas não fará nada por Sua Própria Conta. Exceto a destruição total: isso Ele nunca irá permitir.}

No século XX calcula-se que morreram 45 milhões de cristãos; são mais mártires do que no resto da história do cristianismo. E esta matança continua hoje, neste século XXI, com o martírio e a destruição de suas igrejas de centenas de milhares de cristãos ortodoxos na Síria, Egito e África, com muito pouca informação da imprensa ocidental, e uma fraca reação das igrejas irmãs ocidentais.

Despertar da Igreja Ortodoxa Russa da Cruz do Comunismo

Me limito a ler umas palavras de boas vindas do Metropolita Cirilo de Smolensk para a juventude ortodoxa na Rússia em 1º de junho de 1992.

“Às vezes me pergunto como pudemos sobreviver durante estes anos de cativeiro babilônico, como encontramos força para ajudar a Igreja Ortodoxa a superar o genocídio desencadeado. Porque é nestes termos que devemos falar das perseguições dos anos 20 e 30. Como pôde a Igreja superar os ataques tão perigosos da época de Khrushchov? De onde tirou a força para sobreviver e manter-se nos parâmetros estreitos do regime de Brejnev?

Só vejo uma resposta. A igreja foi despojada de tudo: de edifícios, da possibilidade de dar uma educação religiosa, de entregar-se a obras caritativas, de publicar jornais e livros. Tudo o que restava à Igreja Ortodoxa era a Divina Eucaristia compartilhada por toda a comunidade cristã. O que os ateus chamavam de "culto", considerando que o culto é o que tem menos influência sobre as pessoas, enquanto a educação e os meios de comunicação são, na verdade, o que tem mais poder, {segundo eles.} Mas estavam enganados porque da Divina Liturgia a Igreja tirou toda a sua força e se manteve viva porque pôde, como assembleia de fiéis, reunir-se em torno da mesa do Senhor e celebrar a divina Liturgia Eucarística.”

{Perceberam a importância da Liturgia?}

Jesus diz a Vassula:

A Rússia será o símbolo da Glória de Deus, da Misericórdia de Deus e de Seu Amor. Seus hinos e cânticos, que são tão doces a Nossos Ouvidos, com seus movimentos graciosos, se elevarão ao Céu como incenso. O Amor a ressuscitará como Ele a ressuscitou há mil anos. (01.02.88)

“Em que situação se encontra a Igreja hoje? Tem todas as possibilidades de agir livremente. Usufruímos legalmente de liberdade religiosa. Podemos abrir igrejas e mosteiros – e temos nos dedicado a isto, com êxito, há quatro anos. Abrimos cerca de 7.000 novas igrejas. Se considerarmos que até 1988 tinha apenas 7.000 igrejas, vemos que o número dobrou.

O número de mosteiros também aumentou muito no mesmo período, passando de 16 para 149. Tínhamos dois seminários e duas academias de teologia. Agora temos oito seminários, três academias e vinte colégios de teologia que oferecem um programa de seminário acelerado, com o objetivo de treinar os membros do clero o mais rápido possível. Paróquias são criadas livremente: basta que os fiéis tenham a coragem de desejar isso. Se dez pessoas manifestam o desejo de abrir uma paróquia, o registro pode ser feito sem dificuldade alguma por parte das autoridades civis.”

Jesus diz a Vassula:

Para honrar Minha Nobreza outra vez em ti, abri tuas Igrejas, uma em seguida a outra, chamei-te pelo teu nome naquele Dia: Rússia para alegrar-te e ficares feliz, e para celebrar a Festa da Minha Transfiguração. (13.12.1993)

{Rússia: cai o sistema soviético na semana da Transfiguração. A Transfiguração é a única festa que todas as denominações cristãs celebram, no Dia da Transfiguração. E também se comemora o Dia da Desfiguração: é o da primeira bomba atômica, em Hiroshima. Um dia significativo também. Por um lado, a Transfiguração, por outro lado, a desfiguração.}

“Mas junto com as alegrias temos muitas dificuldades, muitos problemas e muitas dores... Desde 1917, três gerações viveram sem qualquer formação religiosa. Não falo só de escolas, mas de serviços religiosos, porque nem todos tinham a coragem de ir abertamente à igreja... {Se alguém fosse descoberto como cristão, perdia todos os trabalhos importantes. Porque havia o registro disso. E também não podia estudar.} Este país não pode mais ser chamado de Santa Rússia, precisamente porque o conjunto da população do País durante estes 70 anos já não possui a Tradição Ortodoxa... As coisas mais elementares que o povo russo soube desde sempre, como persignar-se ou o que significam as festas do Natal ou da Páscoa, são desconhecidas pelo povo de hoje.

Portanto, a tarefa mais importante para a nossa Igreja, hoje, é uma nova missão, uma nova cristianização do povo, um renascimento da Tradição, da educação ortodoxa.”

Jesus diz a Vassula:

Te dou a Minha Paz. Eu sou a Ressurreição e a ressurreição vai acontecer em breve na Minha filha Rússia. Não sejais juízes de seus filhos e filhas para que Eu não Me veja obrigado a julgar-vos. Se houvesse alguém perfeito entre vós, ainda assim não valeria nada diante da Minha Perfeição. Em breve Me será dada a Glória na sua plenitude e a Rússia governará o resto dos Meus filhos em santidade. (20.10.92)

Algumas Reflexões

Ao longo de sua história, o povo russo expressou uma atração pelos extremos, como indica o historiador Pierre Kovalevsky, irmão do monsenhor Jean. Estamos diante da nação que mais glorificou a Deus e, ao mesmo tempo, a que mais O rejeitou (ateísmo).

No entanto, apesar destas vicissitudes históricas, Jesus manteve Sua preferência pela Igreja Russa, como expressou a Vassula. O que isso nos ensina? Jesus quer que tenhamos a capacidade de chegar até as últimas consequências em nossas ações. Desta forma nos prepara para que O amemos até o fim. O Senhor rejeita a tibieza. Ele diz no livro do Apocalipse (à Igreja de Laodicéia): Oxalá fosses frio ou quente, mas porque és morno, vou vomitar-te da minha boca (Ap 3, 15-16).

Por isso, o Senhor adverte Vassula de que a Rússia pode correr o risco de ir para o outro extremo:

Mas se ela perverter a liberdade que lhe dei e Me afastar de seus pensamentos, ainda que por um momento, vou permitir que um inimigo a invada... Se a Rússia não voltar para mim com todo seu coração e me reconhecer com um coração indiviso, como seu Salvador, vou enviar sobre ela um exército grande e poderoso, e a partir dela a todas as nações. Um exército como nunca antes se viu e nunca se verá outra vez até anos remotos, e o céu vai ficar negro e vai tremer, e as estrelas perderão seu brilho...(13/12/1993)

A Rússia é um povo profético: anuncia e sofre com antecedência o que vai acontecer ao mundo. Já viveu ao extremo o ateísmo e o antiteísmo que agora está inundando o mundo. {O ateísmo é não crer em Deus e o antiteísmo é destruir os que creem em Deus.}

Enquanto o mundo está experimentando o progresso deste flagelo, ela já está fazendo a nova evangelização dos seus fiéis.

O povo russo tem consciência de ser pecador – de onde provém o impulso para a santidade.

{Não há impulso à santidade sem a autoconsciência do próprio pecado. Na Bíblia há dois momentos - um com o Profeta Isaías e o outro com o Apóstolo Pedro – que alguns teólogos ortodoxos citam como modelo de conversão. Pedro, quando recolhe a rede carregada de peixes depois que Jesus lhe diz para lançar a rede de novo, tendo passado uma noite inteira sem conseguir pescar nada, estupefato diz: "Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador!" Não é a consciência apenas dos pecados, mas da distância entre o homem e Deus, estando o homem diante de Deus.}

O nome da "Santa Rússia" não é uma palavra vazia porque o ideal de santidade representa o valor mais alto para a Rússia, que está acima do bem-estar e da conquista. Santidade é dar a vida, não é o cultivo das virtudes. É um esvaziamento para receber o Espírito Santo.

{Um exemplo, de Santa Teresinha do Menino Jesus. Uma noviça que admirava muito Santa Terezinha de Jesus lhe disse um dia: “quantas virtudes terei que adquirir para chegar à tua santidade?” E Terezinha lhe respondeu: "Adquirir? Não! Esvaziar-se!" Para que esvaziar-nos? Serafim de Sarov nos responde:}

O verdadeiro propósito da nossa vida cristã é a aquisição do Espírito Santo de Deus. O jejum, a vigília, a oração, a esmola e todas as boas obras, feitas em nome de Cristo, são meios para receber o Espírito Santo de Deus. Apenas as boas obras realizadas para Cristo nos trazem os frutos do Espírito Santo.

{Serafim de Sarov é o santo do Espírito Santo.}

A espiritualidade russa dá um lugar de destaque ao martírio em nome do Senhor ou de Sua Palavra. A Palavra do Senhor deve ser cumprida e Sua vida, tomada como exemplo. Os monges chamam seus santos: "muito semelhantes a Cristo”.

Para eles, o martírio ou o sofrimento é o meio para cumprir o novo mandamento do Senhor: amai-vos uns aos outros como Eu vos amo. (Jo 13, 34) E como esse amor se manifesta? Dois capítulos adiante, o Senhor nos responde: Não há maior amor que dar a vida pelos irmãos (Jo 15,13) É o amor até o fim, o que ouvimos de João na Última Ceia (Jo 13, 1).

O herói russo não é o guerreiro nem o conquistador, mas o santo. E o santo representa outro tipo de guerreiro: {não é ser bonito, cultivar as virtudes, ser um homem que não discutia...} é aquele que faz guerra contra si mesmo, que é a guerra mais difícil e dolorosa. {dizem os monges, os padres hesicastas} A guerra contra as paixões do mundo, enraizadas no eu, e a guerra atual contra o individualismo e o narcisismo.

{“Eu tenho a minha própria religião.” A evangelização não é uma invasão. A religião é o exemplo que nos dá o Evangelho de João. Quando estão dois discípulos de São João Batista e passa Jesus e João Batista lhes diz: “Eis o Cordeiro de Deus, eis aquele que tira os pecados do mundo.” Então os dois discípulos – João e André – o seguem. Jesus lhes diz: “O que procurais?” E eles Lhe dizem: “Senhor, onde moras?” Ele responde: “Vem e vê.” É isto exatamente a Evangelização. Vem e vê.}

Por isso é muito importante, nesta guerra contra si mesmo, o guia espiritual, o staretz, homem com experiência nas doenças do corpo, da alma e do espírito, que são os obstáculos para a união definitiva com Deus.

{Nós vemos com os olhos físicos porque ficamos cegos dos olhos espirituais. Os olhos físicos podem ver tudo menos a si mesmos, não podemos nos ver. Por isso é imprescindível o orientador espiritual, o staretz. Ele é encarregado de nos abrir os olhos espirituais. Eu me vejo através dos olhos interiores. São os olhos espirituais. Os staretz são muito mais profundos e sábios que os psicólogos de hoje. Há uma psicologia dos Padres do Deserto, dos hesicastas, do século IV, até o século XX, que é extraordinária, absolutamente desconhecida do Ocidente. Os padres do deserto sabem quais são as condições da alma, o que está acontecendo com a alma, como curar as paixões, se é uma doença transitória, se é uma doença psíquica, espiritual ou corporal... O orgulho é uma paixão espiritual. A paixão é uma absolutização de algo bom que, com o excesso, passa a ser mau. Como a água, que é essencial, mas uma inundação mata as pessoas.}

Teófano, o Recluso, {um grande staretz russo do século XIX} diz:

A finalidade do espírito [...] é manter o homem em contato com Deus e com as realidades divinas, independentemente de todos os fenômenos visíveis que o rodeiam [...] Esta visão espiritual existia no primeiro homem até o momento da Queda. Seu espírito via claramente Deus e todas as coisas divinas, tão claramente como vemos hoje um objeto colocado à nossa frente. Mas depois da Queda os olhos do espírito ficaram cegos, e o homem deixou de ver o que anteriormente via com toda naturalidade. O espírito permanece, no entanto, e tem olhos, mas eles estão fechados; é como um homem cujas pálpebras estiveram grudadas; o olho está intacto [...], mas as pálpebras fechadas não lhe permitem entrar em contato direto com ela. Tal é o estado de espírito do homem após a Queda. O homem tentou substituir a visão do espírito pela visão do intelecto, por construções mentais abstratas, por ideologias, mas foi em vão, como provam todas as teorias metafísicas dos filósofos.

A maioria do povo russo aceitou a mensagem do Evangelho desde sua origem e consagrou sua vida aos mandamentos de Cristo. Até aqui se vê, como coluna da Tradição espiritual da Rússia, um modo cristão de vida, e isso é muito importante como acontecimento fundador; a vida pessoal é impregnada pelo Evangelho. Cultivam um cristianismo íntegro, não fragmentado.

E qual é a semente desta fidelidade ao Evangelho? O amor do povo russo pela liturgia, o primeiro amor, como vimos no início.

Os russos dizem que a liturgia é uma bíblia sonora. Dou este exemplo com as palavras de São João de Kronstadt (1829-1908) sobre a liturgia:

E eis que estou convosco todos os dias até a consumação do mundo. (Mt 28,20). Tu estás conosco através dos tempos; e não estamos um único dia sem Ti. E não podemos viver sem a Tua Presença! Estás especialmente nos sacramentos do Teu Corpo e Sangue! Em cada Liturgia tomas um Corpo semelhante ao nosso, exceto no pecado, e nos alimenta com Tua carne Vivificada. Através deste Sacramento estás plenamente conosco, e Tua carne se une a nossa carne, enquanto o Teu Espírito se une a nossa alma; e sentimos esta união dulcíssima, vivificadora, de profunda paz, e assim unidos a Ti nos tornamos um só espírito Contigo; tornamo-nos como és – bons, mansos e humildes, assim como disseste: Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração (Mt 11,29). Como em Cristo Jesus habita toda a plenitude da Divindade, assim também essa plenitude habita no Sacramento Vivificador do seu Corpo e Sangue puríssimos. No pequeno corpo humano cabe toda a plenitude do infinito, a Deidade incompreensível; e no pequeno "Cordeiro" ou "Pão Eucarístico", na menor partícula, habita a plenitude Divina. Glória à Tua onipotência e bondade, Oh Senhor!"

O cristianismo russo está purificado pelas terríveis provações a que foi submetido. É um povo sofrido e alegre ao mesmo tempo. Passou por tremendas provas que quase levaram à sua destruição, mas foi capaz de superar pela força espiritual de sua fé.

Ele também sabe, através de seus santos, que as provas são a grande honra de participar do Cálice de Cristo, e isso lhes dá uma densidade espiritual, uma profundidade mística e humana, ao mesmo tempo em que desafia o conforto morno dos sentimentos depressivos.

Santo Inácio Brianchaninov

Lerei para vocês um texto de Santo Inácio Brianchaninov:

Se estás disposto a suportar o desagradável sabor amargo dos medicamentos, a dolorosa amputação e cauterização de teus membros, os tormentos prolongados da fome, a longa reclusão no teu quarto, e suportas tudo isso a fim de restaurar a saúde perdida de teu corpo que, uma vez curado, voltará a cair doente, sem dúvida alguma, e com total certeza morrerá e se decomporá, suporta, portanto, a amargura do Cálice de Cristo, que garantirá a cura e a bem-aventurança eterna a tua alma imortal.


Se o Cálice te parece insuportável, trazendo a morte, isso te desmascara: ainda que te chames de cristão, não pertences a Cristo. Para Seus verdadeiros discípulos, o Cálice de Cristo é um cálice de júbilo.

O povo russo teve, pelo menos, três provas terríveis que o levaram quase até a destruição definitiva. Ele sofreu pilhagem política, econômica e espiritual. No entanto, soube se recuperar destas experiências terríveis de morte e destruição pela força espiritual dos seus santos. Através deles, sempre escolheram voltar às fontes de seu nascimento para fazer da experiência da Cruz a feliz e gloriosa passagem do despertar.

E, nesse sentido, a Igreja Russa continua o seu destino profético anunciando a todos os cristãos o caminho da unidade no amor de Cristo: a peregrinação do retorno às nossas origens. Jesus anuncia a Vassula em Sua mensagem de 8 de julho de 1990:

Tenho a intenção de vesti-los todos com Minhas vestes de antigamente, e reconstruir a Minha Igreja sobre suas antigas fundações (a Igreja primitiva). Adornarei Minha Esposa com suas primeiras joias, e com vossas bocas Me exultareis e Me louvareis sem cessar. (08.07.90)

As fontes do cristianismo primitivo não pertencem a nenhuma igreja em particular, mas àqueles que, no Espírito Santo, desejam ser ensinados e, assim, recordar as palavras do Senhor para cumpri-las devagar e silenciosamente até o fim. Lembram-se das palavras do Senhor?:

Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu Nome, Ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que Eu disse. (Jo 14, 26)

Esta presença do Espírito Santo nos guiaria até o Pentecostes, o nascimento da Igreja de Cristo. E o que aconteceu naquele dia glorioso?

O Espírito Santo se manifestou a toda a comunidade como um vento impetuoso, e pousou como línguas de fogo sobre cada um dos presentes.

No vento impetuoso está a transmissão da força, da energia, do dinamismo necessário para realizar e transmitir a conversão. E no fogo que pousa sobre cada um se manifesta a vocação pessoal, o lugar único de cada um para a missão. Então, as diferenças deixam de ser objeto de controvérsias para se transformarem em uma sinfonia de encontros.

A individualidade passa a ser uma distinção que enriquece, uma novidade bem-vinda oferecida à fecundidade do "nós".

Concluo com algumas palavras de São Serafim de Sarov:

O próprio Espírito Santo vem habitar em nossas almas; e esta morada e a coexistência em nós do Todo-Poderoso, de sua Unidade Trinitária com nosso espírito, nos são dadas para nada mais do que a condição de trabalhar, por todos os meios ao nosso alcance, para a obtenção do Espírito Santo e isso prepara em nosso corpo e nossa alma uma habitação digna deste encontro, um trono para a convivência do Deus que tudo criou com nosso espírito. Como diz a palavra imutável de Deus: E habitarei e andarei no meio de vós; vós sereis o meu Povo, e Eu serei o vosso Deus. (Lv 26,12)


Notas de rodapé.

1Presbítero ortodoxo, pertence à Paróquia San Martín de Tours desde 1978, em Buenos Aires, Argentina.

2Em duas igrejas de Buenos Aires: a primeira, do padre Matias Morea, Pároco de N. Sra do Perpétuo Socorro e a segunda, do padre Daniel Aguilera, católico romano, Pároco da Igreja do Menino Jesus de Belém, que participou do IX Retiro Latino-americano A Verdadeira Vida Em Deus, em Aparecida, SP, em novembro de 2016.

3Os trechos entre chaves são comentários do palestrante não incluídos no texto escrito de sua palestra original, transcritos e traduzidos do áudio da palestra. (N. da T.)

4Doutrina do Esvaziamento de Jesus Cristo. Cristo, sendo Deus, ao vir ao mundo Se esvaziou de Seus atributos divinos - transcendência, onisciência, onipotência, onipresença, Sua total Glória e esplendor - para se tornar igual aos Homens, exceto no pecado. (N. da T. Fonte: Wikipédia, em 24.08.2017)

5N. da T.: Rus' de Kiev ou Rússia Kievana foi uma federação frouxa de tribos eslavas do Leste Europeu dos séculos IX ao XIII, sob o reino da dinastia de Rurik. Os povos modernos da Bielorrússia, Ucrânia e Rússia reivindicam a Rus’ de Kiev como seu ancestral cultural. [Fonte: Wikipédia, em 04/08/2017. Vide: https://pt.wikipedia.org/wiki/Principado_de_Kiev]

6N. da T.

7Livro clássico da literatura católica ortodoxa – uma coletânea de textos de autores diversos sobre a Oração do Coração, publicada em Veneza, em 1782. (N. da T., fonte: Wikipédia)




Que Deus nos abençoe.

Leonardo Cesar Harger
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